A tomatada que o meu pai fazia é mais uma receita que só se fazia no verão.  Lembro-me dos verões na Carregueira, em casa dos meus pais sem televisão, mas com rádio. Lembro-me da ansiedade da minha mãe por volta das nove, à espera da radionovela, na altura penso que era na Emissora Nacional, com clássicos da literatura portuguesa, Essa de Queiroz, Camilo Castelo Branco e outros. Lembro-me bem dos Maias na altura, um êxito como hoje as telenovelas. O rádio era a pilhas, lá em casa não havia eletricidade, o meu pai tinha um gerador, ligado a um motor Lister, na altura considerados o Rolls-Royce dos motores de rega, para os pôr a trabalhar era um trabalhão, tinha de dar à manivela até pegar e começar a trabalhar.

Também não tínhamos água canalizada, ía-mos ao poço e tiravamos com um balde, para depois encher as infusas, (cântaros) que mantinham a água fresquinha e fáceis de usar. Eram outros tempos, na altura os verões eram muito quentes, não era fácil a minha vida lá em casa, tinha acabado de chumbar a meio do ano em Torres Novas, como estava hospedado, resolvi contar ao meu pai. Nesse ano voltei logo para casa e como tínhamos o pomar para regar, o meu pai encarregou-me da tarefa. A rega tinha de ser feita ao nascer e ao pôr do sol para render mais, e lá andava eu com os meus 13 anos de enxada na mão a fazer a rega abrindo e fechando as regadeiras quando os cômaros (canteiros) estavam cheios de água. Como o pomar era por socalcos, lá tinha eu de andar a correr para não desperdiçar água. Havia, ainda, outro problema, as toupeiras que faziam túneis por todo o lado, a água escapava por lá! Como tinha umas botas de borracha pisava com força os buracos por onde a água fugia, – a vida de estudante chumbado não era fácil, o melhor de tudo era o banho no tanque entre as cinco e as seis horas, que a minha mãe não me deixava ir ao banho antes por causa de estar a fazer a digestão, uma seca de quatro horas, um castigo com aquele calor abrasador.

Voltando aos tomates, o meu pai cozinhava-os com a cebola às rodelas e ovos escalfados, ou com a cebola picada e os ovos mexidos envolvidos na tomatada.

A Tomatada que o meu pai fazia

  • 1kg de tomates bem maduros sem pele cortado em pedaços ou desfeitos com a mão
  • 9 ovos batidos
  • 2 cebolas grandes cortadas aos gomos
  • 4 dentes de alho laminados
  • 8 folhas de louro
  • Sal grosso
  • Azeite a cobrir o fundo
  • Jindungo

Numa frigideira grande ou num tacho deite o azeite, a cebola, o alho, o louro e um pouco de água para a cebola ficar transparente e não queimada. A seguir junte o tomate com o sal e se gostar o jindungo, deixe apurar até reduzir completamente o líquido do tomate, sempre mexendo para não pegar.  Junte agora os ovos, mexendo bem, apague o lume e continue a mexer até os ovos estarem cozinhados. Se necessário volte a acender o lume, mas, muito rápido, os ovos não podem ficar muito passados.

Esta receita além de me fazer lembrar outros tempos, outros sabores, penso que a consigo fazer tal como o meu pai.

Grafe e Faca A tomatada do meu pai a tomatada que o meu pai fazia - A Tomatada que o meu pai fazia, era uma delícia

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