Nunca gostei muito de coelho, lembro-me sempre, quando era miúdo, de a minha mãe fazer arroz de coelho. Na altura íamos à Praça da Ribeira ao sábado pela manhã, era uma loucura, no piso térreo eram os talhos, as bancas do peixe e no meio havia uma zona elevada onde se vendiam legumes a granel.
No primeiro andar eram os legumes de um lado, as frutas do outro e as floristas ao cimo das escadas mas, voltando ao rés do chão, era aí, numa lateral que estavam as vendedeiras das galinhas, dos cabritos e dos coelhos, tudo vivo. O meu pai escolhia o coelho, a senhora matava-o e esfolava-o. Na altura podia ferir algumas susceptilidades, eu próprio não gostava de ver, mas víamos o que estávamos a comprar. Fresco era de certeza.
Normalmente a minha mãe cortava e temperava o coelho quando chegava a casa (não havia frigorifico). Pela noitinha cozinhava-o no tacho de barro durante muito tempo, depois deitava-lhe o arroz e antes de estar cozido apagava o lume e embrulhava o tacho em jornais para o dia seguinte.
No domingo, os meus pais levavam-me para almoçarmos em casa de uns amigos no Pinheiro de Loures. Era um largo com uma rua à volta que subia dum lado e descia pelo outro, numa casa térrea com um pequeno quintal, normalmente comíamos na sala. O amigo do meu pai estava a iniciar um negócio de venda de pintos que eram chocados numa incubadora situada na sala. Estão a imaginar uma caixa cheia de ovos por andares a uma temperatura interior na média dos 40 graus, mais a cozinha ao lado, o calor que estava na dita sala.
Tudo isto mais o arroz de coelho, onde a minha mãe deixava sempre montes de ossinhos, mais os meus 5 anos de idade, rodeado de gente com idade para serem meus avós, sem televisão, (só havia no café) era um sacrifício.
Anos mais tarde fui “visitar” o meu tio Vitor sem o avisar à hora do jantar. Quando percebi que tinham visitas, tive a intenção de me vir embora mas a minha tia insistiu tanto que eu lá acabei por lhe fazer o favor de jantar. Assim que me sentei à mesa, ouvi as visitas deliciadas com um coelho à caçadora que a minha tia fazia divinalmente. A minha primeira reação foi a de pedir desculpa, dizer que tinha perdido o apetite, levantar-me e sair porta fora, mas a fome era tanta que adorei o coelho.

Desta vez era para ser à caçadora, mas como não havia tomate, foi cozinhado só com vinho tinto, estava maravilhoso! Disseram as visitas.

Coelho bêbado

1 coelho cortado em pedaços

Para a vinha d’alhos:

  • 8 dentes de alho picados
  • 8 folhas de louro
  • 2 cravos cabecinha
  • 1/2l de vinho tinto
  • 1/2dl de azeite
  • Sal grosso

Num recipiente ponha o coelho temperado com estes ingredientes, tape com película, ponha no frgorifico e deixe pelo menos 6 horas. De um dia para o outro ainda fica melhor.

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Para cozinhar:

  • 1 cebola grande picada
  • 1 gole de azeite

Num tacho, deixe aloirar a cebola no azeite, a seguir deite o coelho com o molho de vinha d’alhos e deixe cozer tapado.

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Acompanhe com batatas cozidas com casca, puré de batata ou arroz branco cozido em água e sal.

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