Esta receita de caneja (peixe da família do cação) caracteriza-se pelo significado que se encontra no dicionário para a palavra infundice: “Barrela em que se demolhava a roupa muito suja para depois se lavar mais facilmente.” A interpretação destas palavras é quase literal, sendo que o odor amoniacal do peixe que esteve embrulhado em panos, pendurado, guardado em local escuro ou até mesmo enterrado, entre 7 a 15 dias, que lhe confere características únicas depois de cozido.

Esta é uma receita típica da Ericeira, que só os ‘jagoses’ e alguns curiosos conseguem comer. Ter o privilégio de provar e comer a caneja d’infundice devo ao meu amigo Mano Silva. Foi uma honra estar na sua festa com a degustação deste prato. Para quem nunca comeu é quase um mito. Quando se fala dela, fala-se do cheiro a amoníaco, do azeite que fica branco ao cair em cima da caneja, do cheiro com que saímos dos almoços e do banho temos que tomar a seguir. Mas eu andava danado para ir a um destes almoços.

Não é que eu seja muito esquisito, mas há muitas coisas que eu não consigo comer. A caneja já me estava prometida e desta vez o Mano Silva lembrou-se de mim. Lá fui com o Zé, que me acompanhou nesta experiência.

Quando cheguei, a Caneja tinha ido para o lume há pouco tempo. Fui logo para a cozinha ver como se fazia. O João estava a ajudar e levantou logo da tampa de uma das panelas para eu poder cheirar aquela maravilha. (Ele comeu caras de bacalhau) 🙂 O cheiro a amoníaco que me chegou ao nariz não era assim tão forte como diziam, e eu, que não queria dar parte de fraco, depois de lá pôr o nariz disse logo que aquele cheiro não fazia grande confusão. Quando começou a ferver, o cheiro já estava bem mais intenso.

Entretanto foram chegando os convidados e lá fomos comendo as entradas que estavam ótimas: um carpaccio de bacalhau e um presunto temperado com azeite e orégãos.

Quando a caneja já estava cozida, chamaram-me à cozinha para a poder provar. Foi como uma explosão! Ao primeiro contacto não é agressivo, mas depois espalha-se pela boca e sobe ao nariz. O mais parecido que conheço é o molho de wasabi e aquelas mostardas mais agressivas.

É realmente uma experiência única. O cheiro e o sabor amoníaco é de tal intensidade que qualquer nariz fica desentupido à primeira garfada. Depois, ainda na cozinha, voltei a provar e a experiência não foi melhor. Já na mesa, e depois de me servir, tive sorte em conhecer o Chico Luís que me ensinou todo o ritual para comer a caneja de infundice com o ‘cemitério’ (prato para colocar espinhas) ao lado.

Numa primeira fase, temos que tirar a pele, as espinhas e colocá-las no cemitério. Depois desmancha-se a posta em pequenos pedaços e acompanha-se com umas batatas cozidas com casca. Desta vez, como havia ‘turistas’, acrescentaram cenouras e outras verduras aos acompanhamentos. Modernices! Um ‘jagoz’ come caneja de infundice só com batatas. Depois do prato estar preparado e só regar com muito azeite.

No final, perguntaram-me se tinha gostado. Será que gostei? Se quero mais? Quero. Pelo convívio e pela companhia, claro que sim. Com o tempo talvez consiga comer como o meu amigo, um prato cheio e quase sem azeite. Levar para casa o resto é que não.

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice

Caneja d´Infundice
Esta é a cor com que a caneja fica quando lhe pomos vinho em cima.